E se fosse eu?

Atualizado: Jul 14

O que sentem os pais das crianças com perturbações do desenvolvimento

Texto inspirado nas vivências partilhadas pelas mães das crianças e jovens ao longo destes anos de experiência profissional.


Se fosse a mãe? …

Sentiria um aperto no coração (certamente ainda maior do aquele que sinto) quando lido diariamente com a indiferença ou com a exclusão por parte dos que nos rodeiam e muitas vezes daqueles que menos esperamos.


Sentiria certamente uma grande dificuldade em saber lidar com os comentários e as criticas daqueles que ao assistirem à tua birra, não a compreendem nem conseguem avaliar corretamente a minha atitude quando te interpelo calmamente ou simplesmente te seguro a mão, à espera que tua fúria termine e alcances finalmente a tranquilidade necessária para me ouvires.



Seria provavelmente uma mãe, como tantas outras, que não baixaria os braços mesmo perante os piores prognósticos porque, ao olhar profundamente nos teus olhos, sentiria aquilo que sinto: que o hoje até pode ser nublado, mas que se acreditar em ti e souber respeitar o teu tempo, podemos juntos alcançar SEMPRE novas etapas e conhecimentos!

Aprenderia a relativizar dentro dos possíveis os diagnósticos, os pareceres, os resultados das avaliações, as notas, comentários e registos sucessivos, retirando deles apenas as informações que me permitissem potenciar o teu potencial no amanhã, mais próximo e mais longínquo.


Sentiria dificuldade em (hora atrás de hora, dias a fio, de longos meses e anos sucessivos) gerir a vontade de abandonar tudo e isolar-me para ganhar forças para superar as dificuldades que surgem a cada novo dia e cada nova rotina e mudança.


Aprenderia a conhecer-me e a compreender que sou um dos teus melhores modelos e que não há papel mais bonito e também mais difícil na sociedade do que educar, ensinando sentimentos e partilhando emoções e experiências (umas boas, outras más).


Sentiria que dava tudo para substituir aqueles movimentos esquisitos (e muitas vezes bizarros) que me perturbam, por palavras que me transmitissem o que vai na tua mente inocente: aquilo que mais desejas, mais anseias, mais temes ou simplesmente, o que te atormenta - porque às vezes as palavras te faltam, as ideias te confundem ou simplesmente a tua intencionalidade não surge no nosso timing, no nosso tempo conjunto.


Sentiria que há vidas tão mais fáceis, que podiam muito bem ser a tua, porque és apenas uma criança e merecias que o mundo não te isolasse só porque não sabe lidar com a diferença.


Aprenderia que, mais do que aprenderes a ler, escrever e calcular, é muito mais importante aprenderes a ser e a viver, o teu Eu, entre o Nós e no mundo que nos envolve - sem medos e sem sombras, por ti mesmo, com a máxima autonomia possível.


Seria provavelmente uma mãe, como tantas outras, que não baixaria os braços mesmo perante os piores prognósticos porque, ao olhar profundamente nos teus olhos, sentiria aquilo que sinto: que o hoje até pode ser nublado, mas que se acreditar em ti e souber respeitar o teu tempo, podemos juntos alcançar SEMPRE novas etapas e conhecimentos!


Obrigada a todas as mães pelas eternas partilhas!


texto já publicado por mim na Revista Descubra as Diferenças, Nº12, de outubro de 2016



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